O Pai misericordioso nos oferece seu Filho pela Palavra do Evangelho. E pela fé nós o abraçamos e o reconhecemos como dom de Deus para nós.
É verdade que a Palavra do Evangelho chama a todos os homens a que participem de Cristo; porém muitos, cegados e endurecidos pela incredulidade, desprezam esta graça tão extraordinária. Unicamente os fiéis gozam, pois, de Cristo; somente os fiéis o recebem como enviado a eles. Não rejeitam Àquele que lhes foi dado; seguem Àquele que os chamou.
Pela distinção anterior, devemos necessariamente considerar o grande segredo do conselho de Deus, pois a semente da Palavra de Deus deita raízes e frutifica unicamente naqueles que o Senhor, pela sua eterna eleição, predestinou para serem seus filhos e os herdeiros do Reino celestial.
Para todos os outros que, pelo mesmo conselho de Deus, antes da constituição do mundo foram reprovados, a clara e evidente predicação da Verdade não pode ser senão um cheiro de morte que conduz à morte.
Agora bem, a razão de que o Senhor seja misericordioso com uns e exerça o rigor de sua justiça com outros, somente Ele a conhece, já que quis ocultá-la a todos, e isto por mui justos motivos. Pois nem a dureza de nosso espírito poderia suportar tão grande claridade, nem nossa pequenez poderia compreender tão grande sabedoria.
De fato todos os que pretendem chegar até ali, e não queiram reprimir a temeridade de seu espírito, experimentarão a verdade do que diz Salomão: quem pretenda investigar a Majestade de Deus, será esmagado pela sua glória.
Baste-nos pensar em nosso interior que esta dispensação do Senhor, embora oculta para nós, é, contudo, santa e justa. Pois se Deus quiser perder todo o gênero humano, teria o direito de fazê-lo. E nos que afasta da perdição, somente podemos admirar sua soberana bondade.
Reconheçamos, pois, que os eleitos são os vasos de sua misericórdia — e bem está que assim seja! —, e que os reprovados são os vasos de sua cólera, a qual é, não obstante, justa. Dos uns e dos outros tomemos ocasião e argumento para exaltar sua glória.
Do resto, não pretendamos — como acontece a muitos —, para confirmar a certeza de nossa salvação, penetrar no céu e averiguar o que Deus, desde a eternidade, decidiu fazer por nós, pois esta indagação não servirá senão para agitar-nos angustiadamente e perturbar-nos miseravelmente. Contentemo-nos, pelo contrário, com o testemunho por meio do qual Ele nos tem confirmado suficiente e amplamente esta certeza. Pois já que em Cristo são escolhidos todos os que foram predestinados para a vida, ainda antes de ter sido estabelecidos os fundamentos do mundo, em Cristo também nos foi apresentada a prenda de nossa eleição, se é que a recebemos e a abraçamos pela fé.
E que buscamos na eleição senão ser participes da vida eterna? E nós temos esta vida em Cristo, que era a Vida desde o começo e que nos é proposto como vida para que todos os que crêem nEle não pereçam, mas tenham a vida eterna.
Se, pois, possuindo a Cristo pela fé, possuímos também a vida nEle, não temos por que pesquisar por mais tempo o conselho eterno de Deus; pois Cristo não é tão só um espelho no qual nos é apresentada a vontade de Deus, senão um penhor pelo qual essa vontade de Deus nos é selada e confirmada.
Não se deve pensar que a fé cristã é um puro e simples conhecimento de Deus, ou uma compreensão da Escritura, que anda volitando no cérebro sem tocar no coração. Tal é de ordinário, a opinião que temos das coisas que nos são confirmadas por alguma razão humana.
Mas a fé cristã é uma firme e sólida confiança do coração, pela que descansamos com segurança na misericórdia de Deus que nos foi prometida pelo Evangelho.
Assim, a definição de fé deve tomar-se da substância da promessa. E a fé se apoia tão perfeitamente neste fundamento que, se tiramos eles, a fé desmoronaria imediatamente, ou, melhor falando, desapareceria.
Por isso, quando o Senhor, pela promessa evangélica nos apresenta sua misericórdia, e nós com certeza e sem vacilação alguma nos confiamos nAquele que realiza a promessa, então possuímos sua Palavra pela fé. E esta definição não é senão a do apóstolo, que nos ensina que a fé é a substância das coisas que se esperam, a demonstração das coisas que não se veem. O apóstolo entende por estas palavras uma possessão segura e certa das coisas que Deus prometeu, e uma evidência das coisas que não se veem, quer dizer, da vida eterna que esperamos a causa de nossa confiança nesta bondade divina que se nos oferece pelo Evangelho.
Agora bem, já que todas as promessas de Deus foram confirmadas e, por assim dizer, cumpridas e realizadas em Cristo, é evidente que Cristo é, sem lugar a dúvidas, o objeto perfeito da fé, e que essa contempla nEle todas as riquezas da misericórdia divina.
Se considerarmos honestamente em nosso interior até que ponto é cego nosso pensamento ante os segredos celestiais de Deus, e até que ponto é nosso coração infiel em tudo, não duvidaremos que a fé ultrapassa infinitamente todo o poder de nossa natureza, e que é um dom extraordinário e precioso de Deus. Como diz são Paulo: "Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus" (1 Coríntios 2:11, ACF). Se a verdade de Deus vacilar em nós, inclusive tratando-se de coisas que nosso olho vê, como vai ser firme e estável quando o Senhor promete coisas que nem nosso olho vê nem nossa inteligência compreende?
Vemos, pois, que a fé é uma iluminação do Espírito Santo, que esclarece nossas inteligências e fortalece nossos corações. Ela nos convence com certeza e nos da a segurança de que a verdade de Deus é de modo tal certa, que Deus cumprirá tudo o que em sua santa Palavra prometeu que Ele faria.
Eis aqui por que o Espírito Santo é designado como "penhor" que confirma em nossos corações a certeza da verdade divina, e como um selo que selou nossos corações na espera do dia do Senhor. O Espírito Santo dá testemunho a nosso espírito de que Deus é nosso Pai e nós, seus filhos.
Sendo Cristo o objeto permanente da fé, não podemos saber o que recebemos pela fé senão olhando para Ele. Agora bem, o Pai nos o entregou para que tenhamos nEle a vida eterna. Jesus disse: "E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste" (João 17:3, PJFA); e também: "quem crê em mim, ainda que morra, viverá" (João 11:24, PJFA).
Contudo, para que isto se cumpra, é necessário que sejamos purificados nEle, já que estamos manchados pelo pecado, e nada impuro entrará no Reino de Deus. Pelo qual necessitamos participar nEle, para que nós, que somos pecadores em nós mesmos, sejamos pela sua justiça achados justos ante o trono de Deus. E deste modo, despojados de nossa própria justiça, somos revestidos da justiça de Cristo e, sendo por nossas obras injustos, somos justificados pela fidelidade de Cristo.
Pois se diz que somos justificados pela fé, não porque recebamos em nosso interior alguma justiça, senão porque nos é atribuída a justiça de Cristo como se fosse nossa, enquanto que não nos é imputada nossa própria injustiça. De modo tal que é possível, resumindo numa palavra, chamar a esta justiça de remissão dos pecados. Isto é o que o apóstolo declara expressamente comparando com frequência a justiça das obras com a justiça da fé, e ensinando que uma destrói a outra.
Estudando o símbolo dos apóstolos — que indica por sua ordem todas as realidades sobre as que está fundada e se apoia nossa fé —, veremos como Cristo nos tem merecido esta justiça e em que consiste a mesma.
Da mesma forma que Cristo intercede por nós ante o Pai pela sua justiça, para que sejamos declarados justos, sendo Ele nosso advogado, assim também fazendo-nos participar de seu Espírito nos santifica para fazer-nos puros e inocentes. Pois o Espírito do Senhor repousou sobre Ele sem medida — o Espírito de sabedoria, de inteligência, de conselho, de fortaleza, de ciência e de temor do Senhor —, para que todos tomemos de sua plenitude e recebamos graça sobre graça que lhe foi dada.
Aqueles, pois, que se gloriam da fé cristã, enquanto estão inteiramente privados da santificação de seu Espírito, se enganam a si mesmos; pois a Escritura ensina que Cristo foi feito para nós não só justiça senão também santificação. O Senhor, por esta aliança que concertou conosco em Cristo, promete, ao mesmo tempo, que fará a expiação de nossos pecados e que escreverá sua Lei em nossos corações.
A obediência à Lei não está em nosso poder, senão que depende do poder do Espírito que limpa nossos corações de sua corrupção e os amolece para que obedeçam à justiça. Em diante o uso das Leis, para os cristãos, é absolutamente impossível fora da fé. O ensino externo da Lei não fazia senão acusar-nos de debilidade e transgressão. Mas, desde que o Senhor gravou em nossos corações o amor a sua justiça, a Lei é uma lâmpada para guiar nossos passos pelo reto caminho; ela é a sabedoria que nos forma, nos instrui e nos alenta a sermos íntegros; é uma regra, e não sofre ser aniquilada por uma falsa liberdade.
Agora nos é fácil compreender por que o arrependimento está sempre unido à fé cristã, e por que o Senhor afirma que ninguém pode entrar no Reino dos Céus sem ter nascido de novo.
O arrependimento é esta conversão pela qual, abandonando a perversidade deste mundo, voltamos ao caminho do Senhor. E como Cristo não é ministro do pecado, nos purifica das manchas do pecado, e nos reviste da participação em sua justiça; mas não para que profanemos logo uma tão grande graça com novas faltas, senão para que consagremos o porvir de nossa vida à glória do Pai que nos adotou por filhos seus.
A realização deste arrependimento depende de nosso novo nascimento e compreende duas partes: a mortificação de nossa carne (quer dizer, da corrupção que é gerada conosco), e a vivificação espiritual pela qual a natureza humana é restaurada em sua integridade.
O sentido de nossa vida está em que, mortos ao pecado e a nós mesmos, vivamos para Cristo e para sua justiça. E como este renascimento não se consuma enquanto estejamos prisioneiros deste corpo de morte, é necessário que a preocupação de nosso arrependimento dure até nossa morte.
Não se pode duvidar de que as boas obras que procedem de uma consciência purificada sejam agradáveis a Deus: ao reconhecer em nós sua própria justiça, não pode menos que aprová-la e estimá-la.
Não obstante, devemos procurar cuidadosamente não deixar-nos arrastar por uma vã confiança nas boas obras de modo tal que esqueçamos a justificação pela só fé em Cristo. Pois a única justificação das obras que existe claramente de Deus é a que corresponde a sua justiça. Para quem quer ser justificado pelas obras, não basta, portanto, realizar boas obras, senão que necessita mostrar uma perfeita obediência à Lei. E até os que melhor e mais que os outros adiantaram na Lei do Senhor, estão ainda muito longe desta perfeita obediência.
Mais ainda: incluso se a justiça de Deus quiser contentar-se com uma única boa obra, não encontraria o Senhor em seus santos essa única boa obra merecedora de fazer o elogio da justiça. Pois, por mais estranho que pareça, é absolutamente certo que nem uma única obra procede de nós com absoluta perfeição e sem estar obscurecida com alguma mácula.
Eis aqui o por quê, sendo todos pecadores, e estando maculados com inúmeras marcas de pecado, temos que sermos justificados desde fora. Sempre, pois, temos necessidade de Cristo para que sua perfeição cobra nossa imperfeição, para que sua pureza lave nossas manchas, para que sua obediência apague nossa injustiça, para que, finalmente, sua justiça nos seja gratuitamente imputada, sem consideração alguma a nossas obras, cujo valor não pode subsistir ante o juízo de Deus.
Mas quando nossas manchas — que de outro modo contaminam nossas obras ante Deus — são cobertas deste modo, o Senhor não vê em nossas obras mais que uma absoluta pureza e santidade. Por isso as honra com grandes títulos e elogios. As chama de justas e as têm por tais. Promete-lhes uma imensa recompensa.
Em resumo, temos que concluir que a comunhão com Cristo tem tal valor que, precisamente por ela, não só somos justificados gratuitamente, senão que, além disso, nossas obras são tidas por justas e recompensadas com uma remuneração eterna.
Acabamos de expor o que obtemos em Cristo pela fé. Ouçamos agora o que a nossa fé deve olhar e considerar em Cristo para consolidar-se. Isto está desenvolvido no Símbolo (como é chamado), no qual vemos como Cristo foi feito para nós, pelo Pai, sabedoria, redenção, vida, justiça e santificação.
Pouco importa o autor ou autores que compuseram este resumo da fé, já que não contem nenhum ensino humano, senão que provém dos firmíssimos testemunhos da Escritura. Mas com o fim de que nossa confissão de fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo não perturbe a ninguém, falemos primeiro um pouco dela.
Quando mencionamos o Pai, o Filho e o Espírito Santo, não imaginamos três deuses; senão que a Escritura e a experiência da piedade nos mostram no Ser único de Deus, o Pai, seu Filho e seu Espírito. De modo que nossa inteligência não pode compreender o Pai sem compreender igualmente o Filho, no qual brilha sua viva imagem, e o Espírito no qual aparece seu poder e força.
Vamos deter-nos, pois, e fixemos todos os pensamentos de nosso coração num só Deus. e contudo, contemplemos sempre o Pai com o Filho e seu Espírito.
Estas palavras não só nos ensinam a crer que Deus existe, senão também, e sobre tudo, a reconhecer que é nosso Deus e a termos por verdadeiro que formamos parte daqueles aos que Ele promete que será seu Deus e que recebeu como povo seu. A Ele se atribui todo poder: dirige todo com sua providência, o governa com sua vontade e o conduz com sua força e com o poder de sua mão.
Dizer "criador do céu e da terra" significa que cuida, sustenta e vivifica perpetuamente tudo o que criou uma vez.
O que temos ensinado mais acima, a saber, que Cristo é o objeto mesmo de nossa fé, aparece claramente nestas palavras que descrevem nEle todos os aspectos de nossa salvação. O chamamos Jesus, título com o qual o honrou uma revelação celestial, pois tem sido enviado para salvar os seus de seus pecados. Por esta razão a Escritura afirma que "debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (Atos 4:12, ACF).
O título de Cristo significa que tenho recebido com plenitude a unção de todas as graças do Espírito Santo (simbolizadas na Escritura pelo óleo), sem as quais caímos como galhos secos e estéreis. Esta unção o consagrou.
Primeiro como Rei, em nome do Pai, para ter todo poder no céu e na terra, a fim de sermos nós reis por Ele, com domínio sobre o Diabo, o pecado, a morte e o inferno.
Em segundo lugar, como Sacerdote, por dar-nos a paz e a reconciliação com o Pai por meio de seu sacrifício, a fim de sermos sacerdotes por Ele, oferecendo ao Pai nossas orações, nossas ações de graças, nós mesmos e tudo o que nos pertence, já que é nosso intercessor e nosso mediador.
Além é chamado Filho de Deus, não como os fiéis que o são somente por adoção e por graça, senão como verdadeiro e legítimo Filho que é, e portanto o único, em contraposição conosco.
Ele é nosso Senhor, não só segundo sua divindade, que é desde toda a eternidade uma só com o Pai, senão também segundo esta carne criada na que se nos revelou.
Como diz são Paulo: "Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele" (1 Coríntios 8:6, ACF).
Se nos lembra aqui como o Filho de Deus se fez para nós Jesus — quer dizer Salvador — e Cristo – quer dizer Ungido, como Rei para guardar-nos e como Sacerdote para reconciliar-nos com o Pai.
Tomou nossa carne para, uma vez feito Filho de homem, conseguir fazer-nos com Ele, filhos de Deus. se revestiu de nossa pobreza para encher-nos de suas riquezas. Tomou nossa fraqueza para fortalecer-nos com sua força. Se revestiu de nossa condição mortal para dar-nos sua imortalidade. Desceu à terra para elevar-nos ao céu.
Nasceu da Virgem Maria para ser reconhecido como o verdadeiro filho de Abraão e de Davi, prometido pela Lei e os Profetas, e como verdadeiro homem, semelhante em tudo a nós, mas sem pecado. Foi tentado segundo todas nossas fraquezas, aprendendo deste modo a ter compaixão de nós. Foi, porém, concebido no seio da Virgem pelo poder maravilhoso e inefável do Espírito Santo; mas nasce sem ser maculado por nenhuma corrupção carnal, ante ao contrário, santificado com uma excelsa pureza.
Estas palavras nos ensinam como realizou nossa redenção para a qual tinha nascido como homem mortal. Ele apagou a desobediência do homem, que provocava a cólera de Deus, por meio de sua obediência, fazendo-se obediente ao Pai até a morte. Se ofereceu em sacrifício ao Pai por meio de sua morte, para que se aplacasse a justiça do Pai de uma vez para sempre, para que todos os fiéis fossem santificados eternamente, para que se cumprisse a eterna satisfação. Derramou seu sagrado sangue como preço de nossa redenção para apagar a cólera de Deus, acesa contra nós, e para purificar-nos de nossas iniquidades. Nada existe nesta redenção sem mistério.
Padeceu sob Pôncio Pilatos, cuja sentença o condenou como criminoso e malfeitor, para sermos liberados com esta condena e absolvidos ante o tribunal do grande Juiz.
Foi crucificado para suportar com sua cruz a morte que nos ameaçava, e para devorá-la, sem o qual ela mesma nos teria devorado e engolido a todos.
Foi sepultado para sermos unidos a Ele pela eficácia de sua morte, sepultados com nosso pecado e liberados do poder do Diabo e da morte. E quando se diz que desceu aos infernos, isso significa que foi ferido por Deus e que suportou e experimentou o horrível rigor do juízo de Deus, interpondo-se Ele mesmo entre a cólera de Deus e nós, e satisfazendo por nós a justiça de Deus. Deste modo sofreu e suportou o castigo que merecia nossa injustiça, sendo assim que não havia nEle nem sombra de pecado. Não é que tenha estado o Pai nunca irritado com Ele: como poderia ter-se indignado com seu Filho bem-amado, em quem colocava toda sua complacência? Por outra parte, como teria podido o Filho aplacar o Pai com sua intercessão, se o tiver irritado? Antes ao contrário, Ele carregou o peso da cólera de Deus no sentido de que, ferido e abrumado pela mão de Deus, sentiu em si todos os sinais da cólera e da vingança de Deus, até ver-se obrigado a gritar em sua angústia: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mateus 15:34, PJFA)
Pela sua ressurreição temos a firme certeza de conseguirmos a vitória sobre o domínio da morte. Em efeito, não pôde ser retido nas correntes da morte, senão que se livrou delas com todo seu poder, destruindo assim as armas da morte, para que nunca jamais pudessem alcançar-nos mortalmente.
Sua ressurreição é, pois, a vida segura, a substância e fundamento, não só de nossa ressurreição futura, senão também desta ressurreição presente que nos permite viver uma nova vida.
Com sua ascensão ao céu nos abriu esta porta do Reino dos Céus que estava fechada para todos em Adão. De fato, Ele entrou no céu com nossa natureza humana como em nome nosso, de modo que já possuímos nEle o céu pela esperança, e nos sentamos com Ele nos lugares celestiais. Por nosso bem entrou no santuário de Deus, que não tem sido feito por mão de homem, para que perpetuamente, segundo seu ofício de eterno Sacerdote, o nosso advogado e mediador.
Está sentado à destra de Deus Pai. Isto quer dizer em primeiro lugar que tem sido restabelecido e declarado Rei, Mestre e Senhor de todas as coisas, para proteger-nos e amparar-nos com seu poder, de sorte que seu reino e sua glória sejam nossa força, nosso poder e nossa glória contra os infernos.
Em segundo lugar, isto quer dizer que recebeu todas as graças do Espírito Santo para dispensá-las a seus fiéis e enriquecê-los com elas. Deste jeito, embora seu corpo subiu para o céu e por isso já não está presente a nossos olhos, contudo não cessa de ajudar a seus fiéis com seu socorro e o poder manifesto de sua presença, segundo a promessa: "E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos" (Mateus 28:20, NVI). Agrega, finalmente, que o último dia, visivelmente, como o viram subir, aparecerá ante todos na majestade incompreensível de seu Reino, para julgar os vivos e os mortos (quer dizer, aos que aquele dia surpreenderá em vida, e aos que então estarão já mortos), dando a cada um segundo suas obras, segundo que cada um, pelas suas obras, tenha-se mostrado fiel ou infiel. Para nós é um consolo extraordinário saber que o juízo está colocado nas mãos dAquele cuja vinda terá por única finalidade salvar-nos.
Ensinamos a crer no Espírito Santo, quer dizer que se nos manda esperar nEle todos os bens que nos foram prometidos na Escritura.
Tudo o que existe de bom, seja onde for, o faz Jesus Cristo pelo poder de seu Espírito. Por ele cria, sustenta, conserva e vivifica todas as coisas. Por ele nos justifica, santifica, purifica, chama e atrai para si, para que obtenhamos salvação.
Por isso o Espírito Santo, quando habita deste modo em nós, é quem nos ilumina com sua luz para que aprendamos e saibamos perfeitamente as infinitas riquezas que, pela divina bondade, possuímos em Cristo. O Espírito Santo é quem inflama nossos corações com o fogo de um ardente amor a Deus e ao próximo. É Ele quem, a cada dia e cada vez mais, mortifica e destrói os vícios de nossa cobiça, de modo que se há em nós algumas obras boas, são frutos e efeitos de sua graça. Sem Ele não haveria senão trevas em nossa inteligência e perversidade em nosso coração.
Já vimos a fonte de onde brota a Igreja na que se nos propõe aqui crer para estar seguros de que todos os escolhidos estão unidos, pelos laços da fé, numa Igreja, numa comunidade, num povo de Deus, cujo guia, príncipe e chefe deste, como corpo único, é Jesus, nosso Senhor; pois os crentes tem sido escolhidos em Cristo antes da criação do mundo para estar todos unidos no Reino de Deus.
Esta sociedade é católica, quer dizer, universal, pois não há dois ou três. Todos os escolhidos de Deus estão juntos e unidos em Cristo, de modo tal que dependem de um só chefe, crêem num só corpo e estão unidos uns aos outros por uma disposição parecida à dos membros de um mesmo corpo. Se fizeram com toda certeza um, porque, tendo uma mesma fé, uma mesma esperança, um mesmo amor, vivem de um mesmo Espírito de Deus, e estão chamados a uma mesma herança: a vida eterna.
Esta sociedade é também santa, pois todos os que são eleitos pela eterna providência de Deus para ser acolhidos como membros da Igreja são santificados pelo Senhor e regenerados espiritualmente.
As palavras comunhão dos santos explicam ainda mais claramente o que é a Igreja: a comunhão dos fiéis consiste em que, quando um deles tem recebido de Deus algum dom, todos participam dele, ainda que, pela dispensação de Deus este dom tenha sido dado a um deles em particular, do mesmo modo que os membros de um mesmo corpo, dentro de sua unidade, participam entre si de tudo o que têm, embora cada um tenha dons particulares e sejam diversas suas funções. Pois, repito, todos os escolhidos estão juntos e reunidos num só corpo.
Cremos que a Igreja é santa e o mesmo a sua comunhão, de modo tal que, garantidos por uma firme fé em Cristo, temos a certeza de sermos membros dela.
Nossa salvação repousa e se sustenta sobre o fundamento da remissão dos pecados. Esta remissão é em efeito a porta para aproximar-nos a Deus, e o médio que nos retém e nos guarda em seu Reino.
Toda a justiça dos fiéis se resume na remissão dos pecados. Pois esta justiça não se obtém por mérito algum, senão pela só misericórdia do Senhor.
Oprimidos, afligidos e confundidos pela consciência de seus pecados, os fiéis se sentem humilhados pelo sentimento do juízo de Deus, se sentem desgostados, gemem e trabalham como sob uma pesada carga e, por este ódio ao pecado e esta confusão, mortificam sua carne e tudo o que provém deles mesmos.
Para ter gratuitamente a remissão dos pecados, Cristo mesmo a comprou pagando-a ao preço de seu próprio sangue. Somente neste sangue devemos buscar a purificação de nossos pecados e sua reparação.
É-nos ensinado, pois, a acreditar que a generosidade de Deus e o mérito da intercessão de Jesus Cristo nos outorgam a remissão dos pecados e a graça para nós, que fomos chamados e enxertados no corpo da Igreja. Em nenhuma outra parte nem por nenhum outro médio nos foi dada a remissão dos pecados, pois fora desta Igreja e desta comunhão dos santos não existe salvação.
Em primeiro lugar nos é ensinado aqui a esperar a ressurreição futura. Em virtude do mesmo poder com que ressuscitou a seu Filho dentre os mortos, o Senhor chamará a uma nova vida, fora do pó e da corrupção, à carne dos que morreram com anterioridade ao dia do grande Juízo. Os que se encontrem então com vida passarão à nova vida por uma repentina transformação, mas bem que pela forma ordinária da morte.
As palavras vida eterna se agregam para distinguir o estado dos bons daquele dos maus. A ressurreição, de fato, será comum para uns e outros, mas conduzirá a estados diferentes. Nossa ressurreição será tal que, uma vez ressurretos de corrupção para incorrupção, de morte para vida, e glorificados em nosso corpo e em nossa alma, o Senhor nos receberá na eterna bem-aventurança, sem possibilidade alguma de mutação e de corrupção.
Teremos uma verdadeira e completa perfeição de vida, de luz e de justiça, já que estaremos unidos inseparavelmente ao Senhor, que contém em si precisamente, como fonte que não pode esgotar-se, toda a plenitude.
Esta bem-aventurança será o Reino de Deus; esse Reino cheio de luz, de alegria, de felicidade e de plenitude. Estas realidades estão agora muito longe do conhecimento dos homens, e as vemos somente como num espelho e de uma forma confusa, até que chegue o dia em que o Senhor nos concederá ver sua glória face a face.
Pelo contrário, os réprobos e os maus que não procuraram nem honraram a Deus com uma autêntica e viva fé, não terão parte em Deus nem em seu Reino. Serão lançados na morte eterna e na corrupção incorruptível, com todos os demônios. E longe de toda alegria, de toda plenitude e de todos os outros bens do Reino celestial, condenados a trevas perpétuas e a eternos sofrimentos, se verão roídos por um verme que nunca morrerá e queimados por um fogo que nunca apagará.
Se a fé (tal como a temos entendido) é uma persuasão certa da verdade de Deus, a qual não pode mentir-nos nem enganar-nos, não pode ser vã ou falsa, aqueles que têm esta certeza esperam com uma mesma seguridade a realização por Deus de suas promessas. Para eles, estas promessas não podem menos que ser verídicas.
Deste modo, a esperança não é senão a espera firme das coisas que a fé acredita que foram prometidas por Deus com toda verdade.
A fé crê que Deus é verídico; a esperança espera que Ele manifeste sua veracidade no tempo oportuno.
A fé crê que Deus é nosso Pai; a esperança conta com que se comportará sempre conosco como tal.
A fé crê que a vida eterna já nos foi entregue; a esperança espera o dia em que essa vida eterna será revelada.
A fé é o fundamento sobre o qual descansa a esperança; a esperança alimenta e sustenta a fé.
E do mesmo modo que ninguém pode aguardar nem esperar nada de Deus sem antes crer em suas promessas, assim também é necessário que a debilidade de nossa fé, a qual não deve desfalecer, seja sustentada e conservada por uma esperança e uma espera perseverantes.
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Fonte: Breve Instruccion Cristiana, Juan Calvino, Ed. Fundación Editorial de Literatura Reformada (FELiRe).